Estarei sempre grato aos que nos deram o pós-25 de Abril de 1974. Acredito, aliás, que estariam hoje revoltados com o que o “Portugal Político” anda a fazer contra tantas liberdades.
Falar de Liberdades Condicionadas nesta data não é ingratidão, nem falta de noção da “sorte” que tenho por viver num país onde posso escrever estas linhas sem que a porta seja derrubada (se bem que já esteve mais longe), onde o voto é (quase) um direito e o céu está livre de fogo cruzado. Falar disto é, talvez, a forma mais pura e realista de celebrar Abril.
Não sendo eu um político profissional, digo a verdade. Hoje, não consigo celebrar uma liberdade absoluta enquanto o (m)undo continua a lucrar com guerras e faz da pobreza um modelo de negócio — a única razão pela qual ela ainda existe. Se há bombas a cair noutras latitudes, é porque muitos, algures, estão a somar lucros. O nosso país inclusive.
Mas é de Portugal que escrevo agora. A liberdade, por cá, também tem os seus muros invisíveis:
- Quando na Assembleia da República temos uma bancada que ofende povos e etnias, violando o direito à unicidade, é a liberdade de muitos que fica condicionada;
- Quando o Ministério da Educação continua a ignorar a implementação da disciplina de “Literacia Financeira”, a liberdade de escolha dos futuros adultos é condicionada;
- Quando alguém vê a sua Pensão de Velhice ser muito mais baixa do que a que receberia se um (des)Governo não tivesse congelado as carreiras — e se os seguintes não as tivessem mantido assim — a liberdade é condicionada;
- Quando alguém opta pela reforma antecipada acreditando na promessa de não penalização, e descobre que afinal foi penalizado porque uma única alínea, entre centenas num Decreto-Lei, sustenta a mentira promovida (escreverei um artigo sobre isto);
- Quando alguém vê a sua Prestação Social para a Inclusão (PSI) ser cortada em 62%, sem sequer uma notificação, transformando a “inclusão” num conceito de papel rasgado, a liberdade é condicionada (já escrevi sobre o tema).
É a liberdade de quem, mesmo sem bombas, vive encurralado pela falta de meios para ser, simplesmente, humano.
A ilustração “Sacrifícios Repartidos” (abaixo) retrata o Portugal, a Europa atual: de um lado, a colheita da dor, o grito por ajuda, a miséria que sustenta o sistema. Do outro, a balança viciada de uma “República das Bananas” que pesa carreiras e interesses acima de vidas.

Este é o meu paradoxo: sinto-me sortudo por viver em paz, mas sinto-me doente (em “não paz”) por saber que essa paz convive — e lucra — com o sofrimento alheio.
Neste dia de Liberdade, escolho mais uma vez distanciar-me da “manada”. Escolho o meu olhar (a)normal, que vê as fendas no chão que pisamos. A liberdade de falar é o primeiro passo, mas a liberdade de Viver com dignidade é o destino que ainda não alcançámos.
Insisto em reerguer-me, mesmo quando o mundo tenta fazer “undo” à nossa humanidade.